Sustentabilidade Minada: algumas notas em jeito de desabafo sobre Democracia, Direitos das Comunidades e Direitos da Natureza

Questões actuais como a mineração vêm revelar (mais uma vez), em especial para as populações directamente afectadas, o frágil que é a nossa democracia, e o quanto esta é dominada, manipulada e instrumentalizada por quem tem mais poder, seja económico, seja político (o que se confunde em mais circunstâncias do que seria aceitável).

Perante situações que afectam em primeiro lugar e de forma directa as pessoas que vivem nestes lugares, estas são afastadas do processo decisório, sem acesso à informação relevante e transparente, e envolvidas apenas quando se torna evidente que não vão permitir o avanço dos projectos sem darem luta (esta acaba por ser entendida como um convite à propaganda mais ou menos velada, mais ou menos descarada, e a um coro de críticas falaciosas), e numa fase onde estes projectos parecem ser um facto consumado mesmo que não assumido, em relação ao qual pouco ou nada poderão já fazer. O seu direito a decidir sobre as suas vidas e temas que afectam de forma significativa as suas vidas é uma das primeiras vítimas da indústria extractiva sob o pretexto da transição energética e do desenvolvimento económico “sustentável”.

Este é um dos motivos para os movimentos de Direitos da Natureza avançarem de mãos dadas com os Direitos das Comunidades. Natureza e comunidades humanas: duas vítimas e uma mesma face do paradigma que preside à gestão do território e do bem público, e que define os nossos sistemas de governação e o modus operandi de agentes políticos e económicos. É na sua aliança e emancipação que reside o principal potencial de transformação desse paradigma, para permitir a concretização dos desígnios inscritos no Artigo 66º da nossa Constituição e do sem número de acordos e declarações que deviam servir de guias para caminharmos em direcção à verdadeira sustentabilidade ecológica, e não de pretextos para acelerarmos a degradação das condições de vida no Planeta, a começar pelas das pessoas mas não se restringindo a estas. Uma sustentabilidade ecológica verdadeira, e não a falácia que vemos propagandeada hoje, tem que necessariamente atender às necessidades e aos direitos intrínsecos e essenciais de (todos os) seres humanos, e alinhar estes com as necessidades e os direitos dos ecossistemas.

“Local” e “território” são conceitos-chave, mas não porque questões como esta da mineração digam apenas respeito às populações que habitam as zonas. É a realidade física que sustenta a sobrevivência e o bem-estar humanos e não-humanos, e não abstracções numéricas onde o valor é medido apenas e só em euros, toneladas, graus centígrados ou anos fiscais. Sem a preservação e a defesa activas, sem complexos e com coragem, dessa realidade física e das comunidades terrestres humanas e não-humanas que ela sustenta e liga em relações de interdependência e reciprocidade, não é só a subsistência dessas comunidades que fica em causa. E é isto que os nossos governantes em especial parecem insistir em não compreender, ou não aceitar e assumir, não só recusando-se a ouvir a “voz do povo”, seja o que isso for, como se sobrepondo de forma ilegítima e condescendente à vontade e ao interesse da população.

É de todos e por várias ordens de razão. Não se trata apenas de sermos eticamente responsáveis uns pelos outros e pela realidade física primordial de que dependemos e perante a qual temos um dever de cuidado, inclusive mas não só para as gerações futuras. Trata-se aqui também de uma questão de puro bom-senso e sentido de auto-preservação. A par com a democracia, a Natureza e as comunidades, estas são mais duas vítimas da indústria extractiva e do paradigma de desenvolvimento que ameaça a própria existência tal como a conhecemos.

Isolados do mundo físico e das leis da Natureza pelas gaiolas cada vez menos douradas da cidade, ficamos cegos aos valores que deveriam ser e são primordiais, por mais que os ignoremos, e invertemos a nossa hierarquia de valores, colocando o desenvolvimento económico e tecnológico e a acumulação material acima das condições fundamentais à vida e dos limites biofísicos do planeta, quando o inverso é verdade e baseado na realidade física que a ciência se tem esforçado historicamente por compreender, não por perverter ou anular. Habituámos-nos a entender “limites” como algo mau em si mesmo, indigno da nossa espécie, mas a auto-contenção é uma prática básica de auto-preservação, um estímulo à criatividade também, e simples boa cidadania terrestre.

As cidades, mais do que qualquer outro lugar, e em particular as junto à costa, são espaços e entidades profundamente vulneráveis e dependentes das mais diversas formas. É uma realidade que está presa por fios como se torna evidente por ocasião de qualquer greve de motoristas, p.ex.. O lítio ou qualquer outro material extraído longe dos nossos olhares toldados por uma ideia disfuncional de “progresso”, não vai proteger a população urbana da subida do nível médio das águas do mar, da imprevisibilidade e irascibilidade do clima, da falta de soberania alimentar ou da escassez de água potável. Face aos efeitos mais perversos do nosso modelo económico e civilizacional, não vai também proteger-nos da vulnerabilidade económica, social e inclusivamente psicológica, que é a realidade presente e insustentável de muitas, demasiadas pessoas; não nos vai resguardar do corte muitas vezes irreversível de qualquer noção de raiz, de lugar, de pertença, nem da solidão ou do isolamento, ou da ausência de redes de solidariedade de qualquer espécie. É na reconstrução e no reforço destas relações humanas e naturais que residem os últimos traços de esperança num qualquer futuro desejável e genuinamente sustentável, e é fora das cidades que estes traços são talvez mais preservados, mesmo que a muito custo, e onde se encontra mais matéria e substância a partir das quais se pode basear ou inspirar diferentes modos de vida ecológicos a bem de todos e com todos.

Com o passo (mais um) em direcção ao precipício que a mineração a céu aberto faz recear, para além de sermos expulsos das cidades pelo mesmo tipo de mentalidade extractiva e usurpadora que a vende e nos vende em troca, arriscamos agora esvaziar mais um foco de resistência à infecção do modelo económico e civilizacional hegemónico que nos oprime em toda a parte, e aniquilar qualquer hipótese de o combater, transformando-o, criando sobre as suas ruínas, tornando-o obsoleto através da (re)construção de laços de solidariedade, de comunidades mais resilientes, de redes de interdependência e entre-ajuda, de novas-velhas formas de estar e ser no mundo, uns com os outros e com a Natureza, onde nos reconhecemos finalmente como parte d’Ela e assumimos a nossa própria natureza humana no que tem de mais vital e belo.

Há que nos emanciparmos como agentes de mudança activos e cooperativos, resgatar a substância do que é suposto ser o espírito e a prática da Democracia com D maiúsculo: não um sistema de subjugação ao mais forte mas um convite à solidariedade, à colaboração e ao apoio mútuos entre iguais, um repto à imaginação e à criatividade com vista à criação de bem-estar para todos. Tem que passar por aqui, só pode passar por aqui, o caminho para construir uma civilização ecológica com qualquer futuro digno desse nome, que nos permita olhar nos olhos dos que vêm depois, e também nos que nos olham ao espelho.

(Em desenvolvimento…)

Alimento para o cérebro #3 – Sugestões de leitura sobre luz, ruído e solidão

Todos os problemas da humanidade têm origem na incapacidade do homem se sentar tranquilamente sozinho num quarto.

Blaise Pascal (1654) via Brain Pickings

Esta semana reunimos algumas leituras à volta dos temas da luz e da ausência de escuridão, do ruído e da ausência de silêncio, de multidões e da ausência de tempo a sós.

Quando falamos em reconectarmo-nos com a Natureza, em recuperar a nossa ligação com a Natureza como um passo para protegê-la, para travar a sua destruição e regenerar os ecossistemas, e assim travarmos a nossa própria destruição e simplesmente sobrevivermos enquanto espécie, esquecemos-nos muitas vezes – demasiadas vezes – que há uma categoria fundamental de pressões sobre os limites biofísicos do Planeta (humanos incluídos) que não é tão visível quanto a emissão de gases tóxicos para a atmosfera, a descarga de químicos prejudiciais para os rios e os oceanos, a destruição de habitat ou a extinção de espécies, mas que nos separa da Natureza e afecta a nossa saúde – física e mental e social e ecológica – à semelhança das principais causas ambientalistas.

O desenvolvimento urbano e industrial tem vindo a causar o desaparecimento de elementos tão naturais quanto as florestas ou os pássaros. São esses elementos a escuridão, o silêncio e a solidão. Não enquanto elementos que nos isolam dos outros e do mundo que nos rodeia, mas enquanto elementos essenciais para nos ligarmos a nós próprios e aos outros, e que fazem de nós parte integrante desse todo maior. Esta é uma ligação que nos permite recarregar energias, e cultivar uma presença neste mundo e para este mundo que nos torna mais humanos e mais conscientes daquilo que é ser humano e uma criatura da Terra.

O excesso de luz artificial, o ruído “branco” ou menos branco do mundo construído, o contacto forçado com os outros, serão tanto sintoma quanto causa e consequência do muito que correu mal no caminho que temos feito desde o advento da agricultura, e em especial desde a revolução industrial.

Entretanto, fomos perdendo a possibilidade de experienciar o mundo natural – o nosso mundo – de forma plena. Do céu nocturno, desaparecem as estrelas, apagadas pelas luzes omnipresentes e ofuscantes, em permanência, das cidades. A banda sonora dos nossos dias é protagonizada por barulho ao mesmo tempo humano e desumano, e até o vento só é ouvido e reconhecida a sua presença quando excede a força duma brisa. As folhas das árvores que resistem por entre as ruas são abafadas por buzinas, sirenes, martelos pneumáticos, a passagem de automóveis, o toque de telemóveis. O nosso tempo e o nosso espaço são tomados de assalto, invadidos, ocupados, roubados até, de nós próprios, por nós próprios, impedindo-nos de estarmos a sós connosco e de apreciarmos a nossa companhia, de forma inconsciente mas cada vez mais por nossa própria iniciativa. Como uma profecia que se concretiza a si mesma depois de proferida: temos medo da nossa sombra e do que guardamos lá no fundo, na escuridão; medo da nossa companhia e dela não nos bastar; medo do tempo “livre” que não o é realmente mas apenas mais uma brecha num horário a ser preenchido então com entretenimento e convívio, itens entalados numa agenda entre tarefas, deveres e trabalho “produtivo”. Como o título do programa do Ricardo Araújo Pereira (e sim, temos consciência da ironia de o referirmos), somos cada vez mais “gente que não sabe estar”… nem ser. Que não só (já) não sabe como o aprender, como tem medo de o fazer.

Aprendemos sim a ter medo da escuridão, do silêncio e de estarmos a sós, o que significa termos medo de nós próprios e do nosso mundo, do nosso habitat natural que é cada vez mais outro, com cada vez menos de natural. Corremos o risco deste caminho para nos tornarmos máquinas desincorporadas, desconectadas, artificiais, se tornar num caminho sem retorno, e de destruirmos a memória do caminho de volta a nós próprios no processo.

Por tudo isto, fazemos o convite a se recolherem, reservarem um tempo e um espaço para o silêncio e o isolamento, e acenderem apenas a luz necessária para lerem os textos que aqui partilhamos de olhos, mente e coração abertos, sem medo. Ou apesar dele.

In Praise of Darkness, de Barbara Brown Taylor

In Praise of Darkness: Henri Beston on How the Beauty of Night Nourishes the Human Spirit, de Maria Popova (Brain Pickings)

Turn off the Lights, de Suprabha Seshan

Silence, de John Zerzan

‘A great silence is spreading over the natural world’, de John Vidal (à volta das experiências do músico e naturalista Bernie Krause, que podem ver e ouvir na TED talk ‘A voz do mundo natural’)

This is Your Brain on Silence, de Daniel A. Grodd

The end of solitude: in a hyperconnected world, are we losing the art of being alone?, de Paul Kingsnorth

The Elusive Art of Inner Wholeness and How to Stop Hiding Our Souls, de Maria Popova (Brain Pickings)

How Solitude Can Change Your Brain in Profound Ways, de Jane Porter

Alimento para o cérebro #2 – Sugestões de Leitura “simples”

De que serve uma boa casa de não se tem um planeta tolerável onde a colocar?

Henry David Thoreau

Age sempre como se o futuro do Universo dependesse do que fazes, enquanto te ris de ti próprio por pensar que vai fazer alguma diferença.

Frase atribuída a Buda (tradução livre a partir desta citação)

Como prometemos (mais ou menos) há uma semana, partilhamos mais algumas sugestões de leitura que são alimento para o cérebro – pelo menos para nós, claro. Tratam-se de autores e textos guardados na lista “A traduzir”, e que são parte da razão de ser do nosso Colectivo Metamorfilia. Desta vez, apresentamos uma selecção à volta do Decrescimento, da Economia de Suficiência e da Simplicidade Voluntária.

Falámos há dias de como são temas que nos dizem muito. De certa forma são dimensões duma mesma história: uma história diferente da que contamos a nós mesmos todos os dias, que os outros nos contam todos os dias, que nos é contada todos os dias, desde que nascemos.

Essa é uma história que nos diz que somos distintos da Natureza e do Planeta, seres à-parte; que nos diz como tudo à nossa volta existe para nosso proveito, para explorarmos, usarmos, estragarmos e esgotarmos. Que nos diz que o crescimento é uma rua de sentido único, sem desvios, sem rotundas, sem cruzamentos, sem inversão de marcha possível, e não um beco sem saída ou uma estrada em direcção ao precipício.

Mas existem alternativas que são muito mais do que um mal menor, que não têm que ser um sacrifício ou uma regressão. Pelo contrário. É sinal de maturidade reconhecer o erro e parar para (re)pensar. Desistir pode ser uma forma de resistir. É uma frase batida mas não menos verdadeira por isso: o crescimento infinito é incompatível com um planeta finito. E tendo em conta que este é o “nosso”, o único que “temos”, e que somos criaturas corpóreas, da terra e da Terra, somos nós que temos que ceder aos limites biofísicos e não o contrário. Tudo pára de crescer eventualmente. Porque deveria a economia e a acumulação material de ser diferente?

Desde que tomámos contacto com os conceitos de Decrescimento, de Economia de Suficiência e de Simplicidade Voluntária, que nos identificámos com estas ideias que têm tanto de filosófico quanto de pragmático. Porque a Filosofia, ao invés de ser uma disciplina densa, elitista, reservada a especialistas e intelectuais encerrados em bibliotecas ou deliciados com o som da sua própria voz a ressoar nas paredes de salas de aula, é uma disciplina profundamente prática e ligada ao mundo. Liga-nos ao Mundo como finos fios invisíveis que nos conectam ao que nos rodeia e a quem nos rodeia, guiando-nos no nosso dia-a-dia e ao longo das nossas vidas. Da mesma forma que todos somos criativos e criadores, todos somos filósofos. Filósofos e políticos e economistas.

Em resumo, e divaganços à parte, o contacto com o Decrescimento, a Economia de Suficiência e a Simplicidade Voluntária veio abrir os nossos horizontes e acender uma luzinha ao fundo do túnel. Uma centelha de esperança, de perspectiva, que nos permite espreitar para um outro mundo, um mundo Outro, e começar a imaginar o enredo de uma outra história. Mesmo que não sejamos nós a protagonizá-la, podemos ajudar a traçar o mapa e a lançar as fundações para quem vier depois.

Mas sem mais delongas, aqui vão as sugestões:

∞ Ralph Borsodi, um pioneiro, pensador e “fazedor”, que deixou uma obra brutal em todos os sentidos do termo, e fundou a The School of Living, onde encontram as suas obras disponíveis em pdf (sugerimos esta para uma perspectiva mais prática). Esta entrevista de 1974 também vale muito a pena ler, e serve de aperitivo.

∞ Duane Elgin: textos já traduzidos aqui e aqui; mais textos na sua página.

∞ Samuel Alexander: estamos a traduzir este artigo longo, mas recomendamos tudo o que puderem encontrar, nomeadamente na revista Resilience e na sua página (que foi uma das primeiras sugestões de leitura que fizémos, aliás). Fica aqui a ligação para este, “Decrescimento como uma ‘Estética Existencial” (disponível em inglês).

The Simplicity Institute, um centro de educação e pesquisa fundada por Samuel Alexander e Simon Ussher, e que conta com contributos de outros investigadores como Ted Trainer, David Holmgren e Serge Latouche. No bom espírito da Economia de Suficiência, as publicações encontram-se disponíveis para ler online gratuitamente.

The Simpler Way, uma compilação de artigos publicados pelo The Simplicity Institute, em formato website, e que pretende ser (também) uma espécie de guia prático para uma vida mais simples.

E finalmente, este artigo da Amy Livingston, sobre as vantagens e desvantagens da Simplicidade Voluntária e com uma boa resenha do movimento.

Boas leituras!

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Um livro realmente bom ensina-me a fazer mais do que lê-lo. Em breve devo pousá-lo e começar a viver pelas suas pistas. O que comecei por ler, devo terminar agindo.

Henry David Thoreau

 

Tradutório #1 | A propósito de Vida Simples e Decrescimento

Simplicidade Voluntária é um dos temas caros – ou para adoptar um registo diferente, mais valiosos – ao Colectivo. É nossa intenção traduzir e partilhar conteúdos que abordam esta temática, e o processo que inevitavelmente, talvez o possamos dizer, será necessário para conduzir a essa vida simples, a “good life” de que muitos autores falam: o decrescimento (económico).

Em jeito de aperitivo, quer para quem lê, quer para quem traduziu, escolhemos começar este “empreendimento” inesgotável com dois pequenos textos de Duane Elgin. São pequenos em tamanho comparado com o terceiro que temos em mãos de momento, de Samuel Alexander, mas parecem-nos excelentes pontos de partida para introduzir a ideia de “simplicidade voluntária” e preparar terreno para um melhor entendimento do que é o Decrescimento, e para o começarmos a encarar como um caminho não só possível mas também desejável.

Por mais discórdia, conflito e polémica que possa existir à volta da economia e da sustentabilidade, uma coisa é certa: crescimento infinito é incompatível com um planeta finito. Nem os economistas mais ortodoxos podem negar esta evidência. Uma das “falhas” que é muitas vezes apontada aos críticos do paradigma económico actual do crescimento a todo o custo, como única receita para o desenvolvimento, é a incapacidade de apresentar alternativas que nos pareçam viáveis, que se possam imaginar, que nos façam sonhar. É na imaginação e é como sonho que todas as mudanças começam, é na capacidade de criarmos imagens mentais duma realidade potencial mas inexistente: por isto, um dos contributos que queremos dar com o Colectivo Metamorfilia é precisamente o de estimular a imaginação, dando ferramentas para começarmos a ver uma luz ao fundo de um túnel que parece não ter fim. Sem perspectivas de futuro, não conseguimos imaginar, nem ansiar, e muito menos procurar concretizar um outro mundo, contar uma história diferente daquela de que fazemos parte hoje e cujo fim se adivinha pouco risonho.

Não nos vamos substituir aos textos que traduzimos, divagando sem fim nem rumo aqui. Os divaganços ficam para outras ocasiões, quem sabe na caixa de comentários aqui ou na nossa página no facebook, por exemplo. Esperamos que estes textos, mais do que darem respostas, suscitem muitas perguntas, em especial a nós próprios. O que pensamos quando pensamos em Decrescimento? E se pensarmos antes em Simplicidade Voluntária? E o que é para cada um de nós uma vida boa? Talvez este texto devesse ter começado por aqui, para que estas perguntas fossem colocadas antes de ler, e novamente depois de ler, estes dois textos de Duane Elgin. Entretanto, vamos tentar reunir num único artigo aqui no blog uma série de sugestões de leitura relacionadas com estes temas: uma espécie de empurrão gentil para fazerem a vossa própria pesquisa, uma busca em todos os sentidos do termo.

Duane Elgin_Simplicidade e Sacrifício

Equívocos Vida Simples_Duane Elgin

Alimento para o cérebro #1 – 3 sugestões de leitura

Acumulámos (guardámos cuidadosamente) tantos textos para traduzir, que vai demorar muito (muuuito) tempo para os partilharmos a todos em português. Nunca é cedo nem tarde para alimentar o cérebro e a alma com refeições nutritivas, mesmo que nem sempre de fácil digestão, como também nunca é cedo nem tarde para aprender uma língua, melhorá-la, ou mesmo apreender uma nova linguagem, uma nova forma de pensar e sentir o Mundo. Ou talvez se trate antes de recordar essa linguagem que se perdeu há gerações…? Como nos podemos lembrar daquilo que nunca soubemos? Antes de encontrarmos respostas – se algum dia as viermos a encontrar, se é sequer suposto encontrá-las – podemos começar por colocar perguntas. E se? Mas porquê?

Por isto, vamos tentar com alguma regularidade partilhar uma lista curta de sugestões de leitura. Três de cada vez é um número tão bom quanto outro qualquer. Autores, artigos e ensaios, revistas digitais, blogs e páginas online, que de alguma forma nos tocaram. São portas entreabertas que vos convidamos a abrir para descobrirem ao vosso ritmo e se deixarem levar. E porque é de partilha que se trata, se alguma também vos tocar, saibam que podem sempre vir aqui pensar em voz alta connosco, sem ruído, sem gritos, sem conflito exterior (quanto ao interior, cada um sabe do seu mas diz-se que partilhar ajuda).

As primeiras três sugestões e respectivas “portas” de entrada:

Life Poets Simplicity Collective​: para uma introdução ao tema da simplicidade voluntária, nada como ir aos clássicos.

The Dark Mountain Project: sugerimos lerem primeiro o Uncivilisation – The Dark Mountain Manifesto (mais um dos textos que gostaríamos de traduzir…).

∞ Orion Magazine: comecem com os ensaios de Paul Kingsnorth e de Derrick Jensen, e com o «Kana» de Chris Dombrowski (só para começar!).

Projectos inspiradores – à conversa com Patrícia Esteves, criadora do The UniPlanet

Foi há tanto tempo que desafiámos o Uniplanet, na pessoa da Patrícia Esteves, a conversar connosco para o Colectivo, que temos até vergonha de o dizer. Por dificuldades em conjugar agenda, a conversa que gostaríamos de ter tido deu-se por e-mail, o que tem as suas limitações, claro, mas mesmo assim não quisemos deixar de aproveitar a oportunidade para descobrir um pouco mais sobre este projecto. Já há algum tempo que acompanhamos o seu trabalho, e sempre tivemos curiosidade em saber o que (e quem) estaria por trás dele. Numa era em que o activismo tem uma dimensão virtual cada vez mais significativa e nem sempre da forma mais construtiva, e sendo o próprio Colectivo uma iniciativa digital, conhecer melhor o UniPlanet pareceu-nos desde logo uma ocasião para aprender e, ao mesmo tempo, uma forma de prestar homenagem a uma ideia com gente dentro que, por carolice, convicção, amor, e com muita dedicação pessoal, dá vida a um projecto como este.
O que se segue resulta da troca de alguns e-mails com a Patrícia, fundadora e master mind da Uniplanet, que teve a amabilidade de responder a uma série de perguntas que, melhor ou pior, lançámos como mote para uma conversa que esperamos vir a ter a oportunidade de aprofundar cara-a-cara, para publicação… ou não.

The UniPlanet

Colectivo Metamorfilia: Apresenta-nos o projecto UniPlanet. O que é, “quem” é?

Patrícia Esteves: O UniPlanet nasceu em 2009. Na altura chamava-se “O Único Planeta que Temos” e era um blog mais espontâneo com publicações mais irregulares.

Passou por várias fases e foi crescendo e aumentando a sua presença online. Mas, ao longo de toda a sua história, a sua missão continuou a mesma: divulgar histórias ligadas ao ambiente, direitos humanos e direitos dos animais, assim como projectos sustentáveis nacionais e internacionais, que estão a tentar fazer a sua parte para criar um mundo melhor, inspirando-nos a dar os nossos próprios passos para uma vida mais sustentável.

CM: Como é que surgiu a ideia e qual foi o clique que te fez avançar? Como foi o início, os primeiros passos para concretizar a ideia que tinhas? Foste surpreendida por alguma coisa em especial, pela positiva e/ou pela negativa?

UP: Quando criei o blog, há 9 anos, ainda não existiam muitos sites e blogs dedicados ao ambiente e sustentabilidade em Portugal. Achei que era importante debaterem-se estes temas e dar a conhecer pequenos passos e escolhas mais conscientes. Para além disso, sempre tive interesse em escrever sobre direitos humanos.

Houve diversos documentários que, na altura, também ajudaram a dar um impulso ao projecto, como o “Home, o Mundo é a Nossa Casa” e “Soja, em nome do progresso”.

No princípio, não fazia ideia de como se criava um blog, por isso fui explorando e, aos poucos, o projecto foi tomando forma. Foram várias as surpresas no nosso caminho. Uma delas foi o facto de muitas pessoas terem começado a seguir e a escrever comentários nos artigos do blog, dando-nos os parabéns pelo conteúdo. A outra foi ter ganhado vários prémios no ano seguinte à sua criação.

Hoje em dia, o público cresceu e acho impressionante a sensação de estarmos a inspirar centenas ou mesmo milhares de pessoas com o que escrevemos.

CM: Até agora, que conteúdo ou acontecimento te marcou mais?

UP: Depois de mudarmos o nome para UniPlanet (já vou explicar porquê), em 2016, escrevi um artigo que se tornou viral. Mal o publiquei, de repente, havia mais de mil pessoas de todo o mundo online a lê-lo! E foi assim que me apercebi que é possível chegar a muitas, muitas pessoas, mesmo quando se escreve em português.

Quanto ao nome do blog, achei que tinha que encurtá-lo, já que até os meus amigos tinham dificuldade em lembrar-se dele! Fica a dica para quem estiver a começar agora um blog: escolham um nome curto e fácil de memorizar.

Dois acontecimentos importantes recentes foram o lançamento, em Setembro deste ano, da nossa revista online bimestral, a Raízes Mag, dedicada ao ambiente e à sustentabilidade, feita em parceria com a Leila Teixeira do projecto Âncora Verde. E o outro foi a criação da nossa horta comunitária em Coimbra. O terreno fica nos arredores da cidade, à beira-rio, e é maravilhoso! A horta está a ensinar-nos a trabalhar em equipa, a partilhar aquilo que sabemos fazer de melhor e a confiar uns nos outros, algo muito importante numa sociedade em que cada um está por si e em constante competição. Gostaria, já agora, de agradecer a duas pessoas: Agostinho Cortez, por nos ter cedido o terreno gratuitamente e por todo o apoio que nos tem dado, e Rosa Rodrigues, do projecto Dona Rosa, pela orientação, apoio e por nos tirar todas as nossas dúvidas relativas à agricultura biológica.

uniplanet_horta_jan2019

“Da nossa horta vemos o rio”

CM: Olhando para o percurso da UniPlanet, quais foram os maiores ensinamentos que o projecto te trouxe?

UP: O primeiro ensinamento é que é sempre mais fácil escrevermos sobre algo de que gostamos e com o qual nos identificamos. O segundo é que o mundo está sempre em mudança e que por isso temos de ser flexíveis e de nos ir adaptando, principalmente no mundo digital. O terceiro é que nunca sabemos quem estamos a inspirar. Às vezes, mesmo um texto pequeno pode provocar grandes mudanças.

Acho que, no futuro, as pessoas vão poder trabalhar naquilo de que mais gostam e para o qual têm talento, em vez de estarem a desperdiçar as suas vidas em trabalhos que detestam.

CM: Actualmente, que papel ou lugar tem na tua vida? Conta-nos como é um dia típico da/com a UniPlanet (se é que existem dias típicos, claro!).

UP: Não existe um dia típico. 🙂 Mesmo assim, dedicamos imensas horas – acho que os leitores não fazem ideia de quantas! – diariamente a este projecto, seja na recolha de informação, na edição, tradução ou publicação dos artigos. Também existe o trabalho nas redes sociais , recentemente, começámos a criar vídeos.

CM: Que planos tens para a UniPlanet no futuro e que possas partilhar? Conta-nos como é a UniPlanet nos teus sonhos mais “loucos”. 🙂

UP: De momento, estamos a finalizar um ebook para bloggers (fiquem atentos!). Um dos planos que temos é o de criar outra horta biológica urbana e colectiva para a nossa comunidade, desta vez no Porto. Se tiverem interesse ou se tiverem sementes que queiram doar, entrem em contacto connosco. 🙂 Estamos também a pensar criar uma biblioteca das coisas.

Gostava que a equipa do UniPlanet pudesse crescer e que viesse a incluir membros internacionais, para publicarmos artigos noutras línguas para além do português.

CM: Vivemos num momento e numa sociedade onde o quantificável é sobrevalorizado. Podemos dizer que existe uma obsessão por números e estatísticas, nomeadamente no mundo digital. Imaginamos que, para o UniPlanet, o impacto que tem e a sua missão escapem a estes critérios, embora sejam argumentos importantes para atrair patronos e investidores que ajudem a manter o projecto com a qualidade que já valeu vários prémios, aliás. Como é que percebes esse impacto, e em que é que ele se traduz?

UP: Como já tinha dito, é difícil ter uma ideia concreta do impacto que aquilo que escrevemos pode ter. No entanto, houve leitores que nos contactaram para agradecerem e contarem que adoptaram hábitos mais saudáveis graças à informação que divulgamos. São estas palavras que nos dão vontade de continuar o nosso trabalho. Às vezes, um artigo simples que até não parece ter uma grande recepção por parte dos nossos leitores surpreende-nos e gera as maiores mudanças!

Temos leitores de várias áreas, de vários países e até de vários partidos políticos, por isso é quase impossível saber de que forma estamos a inspirar comportamentos diferentes, formas de pensar diferentes, a quebrar preconceitos, etc.. Infelizmente, muito do que escrevemos não é ensinado nas escolas. Por isso, o facto de os nossos artigos promoverem o debate destas questões nas redes sociais já nos parece algo muito positivo!

CM: Quando vemos projectos como o teu, sentimo-nos inspirados e ficamos ao mesmo tempo intrigados, a pensar no trabalho que envolve e que está por trás. Fala-nos um pouco sobre isto, sobre como é que te organizas, e que conselhos darias a quem quer começar algo semelhante? O que é que farias de diferente se começasses agora?

UP: Seguimos o trabalho de várias universidades e organizações de conservação e de direitos humanos para ficarmos a par das últimas notícias e de projectos inovadores. Tenho também um programa mais ou menos definido com os assuntos sobre os quais vou escrever em cada dia.

Para quem quer aventurar-se neste caminho, sugiro originalidade, autenticidade, dedicação e resiliência. Tentem ser diferentes, escrevam sobre o que gostam e o que vos desperta o interesse, publiquem regularmente e lembrem-se: acreditem no vosso projecto e não desistam. Às vezes, as coisas levam tempo.

Se estivesse a começar agora, tinha escolhido um nome mais pequeno (riso).

The UniPlanet - Raposa; Damos voz à Terra

CM: Esta agora é uma pergunta com uma introdução longa (desculpa!), que inclui várias questões e pode suscitar outras tantas, mas achamos que é importante para enquadrar o que pretendemos e também para te dar o mote para divagares à vontade.

Quando pensamos em activismo e causas que merecem e exigem a nossa atenção, é difícil focarmo-nos numa só tendo em conta a enormidade e a urgência de tantos dos problemas que nos rodeiam e envolvem. Ao mesmo tempo, para manter a sanidade e conseguirmos ser úteis dentro das limitações que todos temos, é fundamental escolhermos as batalhas e focarmo-nos no que está ao nosso alcance fazer, além de termos que desenvolver as nossas próprias estratégias para digerir tudo isto e mantermos algum equilíbrio emocional, um certo bem-estar, que nos permita ter condições para dar o nosso contributo. A missão da UniPlanet é de consciencialização, divulgação, sensibilização, por isso acaba por abranger um leque muito vasto de temáticas.

Perguntas! Pessoalmente, que questões é que não te saem da cabeça, não te deixam dormir e mexem mais contigo? Por outro lado, o que está a acontecer de positivo no mundo que te ajude a manter a esperança e a acreditar que vale a pena persistir? E finalmente, como é que consegues gerir o impacto que trabalhares de perto com tanta informação potencialmente devastadora tem no teu próprio bem-estar? Qual é a tua experiência pessoal ou junto das pessoas com quem te relacionas; que dicas darias? E fazemos estas pergunta porque achamos que é uma dimensão fundamental de quem se envolve nestas causas de alguma forma, dimensão que é muitas vezes descurada, e acreditamos que pode ser importante para quem nos venha a ler.

UP: Algo que não me sai da cabeça: um vídeo que vi da PETA que mostrava como são criados e mortos os crocodilos que são usados para se fazerem malas e sapatos… É extremamente triste e revoltante, principalmente porque é um animal do qual a maioria das pessoas não gosta e, por isso, têm mais dificuldade em simpatizar com a sua causa. Isto também mostra o quão distantes estamos do processo de fabrico dos produtos que chegam depois todos arranjadinhos às lojas…

O que me inspira? As boas notícias que publicamos no UniPlanet sobre as pessoas que criam produtos mais sustentáveis, que lutam pelos direitos dos animais ou pelo fim da poluição por plástico; sobre as lutas das mulheres no Irão contra o uso obrigatório do hijab ou sobre os governos que criam leis que protegem as abelhas ou combatem o desperdício alimentar. Também o facto de Portugal ter implementado a lei da alimentação vegetariana em todas as cantinas, os passos que se têm dado para tornar os países mais inclusivos e justos para as mulheres e para a comunidade LGBT, a criação de reservas naturais para proteger a vida selvagem e as proibições dos circos com animais selvagens. Na verdade, todas as notícias que tornam este mundo um lugar mais seguro para todos nós e com menos sofrimento.

Sim, é verdade que também trabalhamos com muita informação devastadora. Mas eu acredito que precisamos primeiro de enfrentar a realidade para depois a podermos mudar. Ou seja, precisamos de ter noção de como são criados os animais hoje em dia – que já não é numa quinta ao ar livre – e que a agricultura intensiva, muitas vezes transgénica, para alimentar o gado, está a desflorestar a Amazónia. Ou ainda que criamos sociedades que infelizmente ainda não são seguras para as mulheres, principalmente nos países do Médio Oriente, do subcontinente indiano, da América Latina e de África. E mesmo na Europa ainda há muito a fazer.

O problema é que se continuarmos a fechar os olhos, principalmente os governos que têm a responsabilidade de criar leis que tornem a vida melhor para os seus cidadãos, vamos continuar a assistir a um mundo em que ninguém quer saber e ninguém se preocupa. É preciso criarmos um mundo em que nos preocupamos com os outros, com o bem-estar das pessoas na outra parte do globo, que produzem a nossa comida e a nossa roupa, por exemplo.

Como é que eu faço para lidar com estas informações negativas? Revolto-me muitas vezes, perco a esperança, sinto muitas vezes que este mundo faz pouco sentido e que vim parar a um planeta estranho, mas depois publicamos um artigo e outro e outro que me faz sorrir, que me dá a impressão de o mundo estar a avançar, de haver um movimento contínuo de mudança. E acho que o próprio movimento me acaba por arrastar a mim e por me inspirar a continuar.  : )

CM: Sentes que Portugal oferece algum obstáculo ou desafio em especial a iniciativas como a tua?

UP: Felizmente, em Portugal é bastante fácil começar um blog, já que as plataformas são gratuitas e temos liberdade de expressão.

No entanto, para quem escreve sobre temas relacionados com o ambiente, a parte mais complicada é tornar o projecto economicamente sustentável.

No estrangeiro já é comum o público apoiar projectos, artistas e escritores independentes com os quais se identificam, através de plataformas como o Patreon, de uma conta do PayPal, etc.. Aqui em Portugal, o conceito ainda não é muito comum.

CM: Há algum projecto ou projectos, ou pessoas, que te inspirem especialmente, e que aches que todos devíamos conhecer?

UP: Um blog que deviam conhecer é o “Sustentabilidade é acção“. Nasceu no mesmo ano que o UniPlanet e também é dedicado às questões ambientais.

Outro projecto que vale a pena conhecer é o “Quebrando o Tabu“. Tem uma comunidade enorme e a sua missão é derrubar muitos dos preconceitos que ainda existem na nossa sociedade.

CM: Finalmente, para quem já segue a UniPlanet ou para quem ainda não segue, quais são os conteúdos que estão na calha e que não vão querer perder?

UP: O UniPlanet fez recentemente uma parceria com a Associação Vegetariana Portuguesa (AVP) de forma a responder às dúvidas dos nossos leitores sobre o vegetarianismo ou sobre o veganismo. As questões são respondidas pela AVP e publicadas no UniPlanet. Aproveitem e enviem-nos as vossas dúvidas!

Acreditamos que ainda há um grande caminho a percorrer no sentido de se sensibilizarem mais pessoas para as questões ambientais e para um consumo mais consciente. E por isso vamos continuar por aqui. Obrigado a todos os que apoiam e acreditam no nosso trabalho!

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Patrícia Esteves, criadora do UniPlanet e responsável por dar corpo e alma ao projecto.

 

∞ ∞ ∞

Obrigado nós, Patrícia! Pela generosidade com que te dedicas a este projecto e com que respondeste ao nosso desafio. Esta foi uma conversa que demorou a chegar “aqui”, e é de sorriso nos lábios e nos olhos que partilhamos aqui todas as portas e janelas que tens criado para, com e através do UniPlanet.

Podem descobrir mais em:

A Horta colectiva na zona de Coimbra 

O canal do UniPlanet no YouTube

A Raízes Mag, uma revista online bimestral em parceria com a Âncora Verde. Mais informações disponíveis na página do Instagram e do Facebook. Para receberem a revista directamente por e-mail, inscrevam-se aqui.

“Reciclar Ideias”, grupo de leitura no GoodReads também em parceria com a Âncora Verde

Para além de apoiarem o The UniPlanet acompanhando a página através do website, da página no Instagram @theuniplanet e no Facebook, podem colaborar através do grupo no Facebook ou contribuir através do Patreon.

Divaganços sobre Craftivismo: reflexões e inspirações partilhadas @DialogueCafé

Colectivo Metamorfilia_Craftivismo-DialogueCaféO evento do Dialogue Café sobre Craftivismo decorreu esta quinta-feira, e estou a processar tudo aquilo de que falámos. Aqui ficam alguns apontamentos com a intenção de despejar e continuar a minha própria reflexão, e também com a intenção de abrir um espaço (ou ajudar a manter aberto o espaço criado pelo evento) para que a conversa se prolongue, alargue e aprofunde. Podem encontrar o vídeo aqui e a página do evento aqui e aqui.

Foram pouco mais de duas horas, mas o assunto é imenso, e podia estender-se por muitas mais. Ou melhor: esta é uma discussão que importa manter e alimentar continuamente, porque há que cultivar uma atitude de questionamento e reflexão constantes, enquanto deitamos mãos à obra e procuramos a melhor forma de traduzir a teoria na prática.

Aqui faço apenas alguns destaques pessoais, mas convido todas as pessoas que participaram, e todas as que queiram participar, a contribuir com as suas próprias reflexões.

I. Sobre o conceito de Craftivismo: o que é, como se define, a que se refere?

O consenso geral é que não é fácil ou mesmo possível encontrar uma definição estanque. O facto de se adoptar um termo específico leva-nos a questionar se uma determinada expressão encaixa realmente no conceito. Como apontou a Teresa Carvalheira, presente como representante do movimento Fashion Revolution Portugal, podemos questionar-nos como se distingue um “crafter” de um “craft artist”, e até de um “craftivist”, claro.

O simples facto de colocarmos questões sobre os termos que escolhemos usar, tem valor por si só independentemente de chegarmos ou não a respostas conclusivas, e no que toca a artes *&* ofícios, esta discussão promete não chegar ao fim. Em relação ao “craftivismo” em concreto, diria que, mais do que encaixar ou não numa qualquer definição, vale a pena pensar sobre o que é que a abordagem do Craftivismo inspira. Que tipo de iniciativas, atitudes e soluções inspira no sentido de contribuir para uma mudança positiva na sociedade, a nível político ou económico, na cultura e nas mentalidades, na forma como nos relacionamos e interagimos com o mundo.

Não me parece que seja fundamental estabelecer uma lista de critérios que uma qualquer expressão tenha que preencher para ser considerada craftivista. Ou que seja sequer importante atribuir este rótulo, agora que falamos nisso… Talvez seja por este motivo que, ao invés de “listas de critérios”, encontramos isso sim “manifestos” que dão linhas orientadoras sobre o espírito, a intenção e o objectivo desta prática. Os exemplos mais notórios serão o “The craftivism manifesto” e o “A Craftivist’s Manifesto”.

Como com praticamente tudo o que é vocábulo e o conceito a que este procura dar forma, “craftivismo” é um auxiliar de conversação, digamos: uma muleta que serve de ponto de referência comum para identificar aquilo de que se está a falar, e assim facilitar a comunicação. É para isto que as palavras servem, e embora seja difícil, temos que fazer um esforço consciente para não nos deixarmos constranger pela terminologia e pela interpretação que cada um faz dela, nem a nós nem aos outros. A ideia é incluir e não excluir, diversificar e não homogeneizar, alargar horizontes e não entrincheirar perspectivas. Diria que a ideia é abrir espaço para que cada um possa entrar, pegar no espírito que lhe serve de base, torná-la sua, e concretizá-la da forma mais consequente, eficaz e genuína possível.

II. Sobre a forma como o Craftivismo pode ser usado para potenciar e concretizar transformações positivas efectivas.

Esta é uma das minhas principais preocupações. Um dos dilemas ou desafios que me faz pensar e hesitar mais, por vários motivos.

Um dos meus receios é o da minha prática craftivista, qualquer que ela seja ou venha a ser, não passe de um exercício fútil e inconsequente. Para o evitar – aceitando logo à partida que se vão cometer erros até acertar o passo, – importa não só mobilizar as pessoas para que haja massa crítica, mas também associar a acção a um objectivo concreto e estratégico.

Tomando o livro How To Be a Craftivist: the art of gentle protest da Sarah Corbett como guia, e dito de forma muito sintética, existem três grandes áreas de intervenção no activismo: uma primeira focada em acudir a necessidades urgentes, imediatas, para aliviar uma determinada situação de carência, calamidade, injustiça; uma segunda concentrada em consciencializar as pessoas e mobilizá-las para provocar alterações nas atitudes, mentalidades e políticas que estão na origem dessas situações; e uma terceira, dedicada ao desenvolvimento de alternativas, que criem condições para diminuir gradualmente e erradicar a necessidade dos dois tipos de acção anteriores.

No meu caso em particular, quero concentrar-me nos dois últimos pontos: potenciar a consciencialização e mobilização para provocar alterações nas estruturas opressivas, e contribuir para o desenvolvimento de estruturas alternativas e de condições que criem comunidades mais resilientes. Para isto, é necessário encarar o Craftivismo como uma ferramenta que alavanca estas alterações, associando-se a outras iniciativas, reforçando a sua acção, enquadrado numa estratégia mais ampla e objectiva.

Para ilustrar tudo isto (e as dúvidas e hesitações que suscita), dou exemplos mais ou menos concretos daquilo em que tenho andado a ruminar. Fico sempre na dúvida (até ver…) sobre qual a melhor forma de os concretizar e, inclusive, sobre se fazem ou não sentido.

1. Grupo/Projecto Querid@ Polític@

A ideia que está na sua génese: bordar lenços para oferecer a decisores políticos, com uma mensagem que apele ao seu sentido de bem comum, para que coloquem rivalidades políticas e interesses partidários de lado, trabalhem em conjunto e usem o poder que lhes foi confiado duma forma construtiva, que sirva a todos, e de que os seus filhos e netos se orgulhem. O tom da mensagem pretende ser familiar mas respeitoso.

Qual o sentido e a intenção? Um aspecto que vejo como sendo um dos grandes obstáculos à mudança real e efectiva, é o sentimento generalizado de desconfiança entre as pessoas, em si próprias e em relação umas às outras, e em especial entre o “comum cidadão” e a classe política.

Se queremos que as coisas sejam de alguma forma diferentes, temos nós próprios que assumir uma postura diferente. Este tipo de abordagem gentil e cooperativa, dialogante, quebra e contraria a barreira aparentemente intransponível entre os vários sectores de uma sociedade. Esta barreira acaba por ser causa e consequência duma atitude de desistência, descrença, resignação, por um lado, e de agressividade, cinismo e revolta por outro. Isto não ajuda ninguém. Mudar a forma como nos dirigimos a e encaramos aqueles que muitas vezes, e bem, consideramos os principais responsáveis pelos males do mundo, tem o potencial de mudar o registo, a forma como interagimos, desarmar o outro, e criar pontes onde antes havia muros, parafraseando a Sarah Corbett. Permite também responsabilizarmo-nos e recuperarmos algum sentido de poder pessoal e colectivo, colocando-nos ao mesmo nível, que é onde deveríamos sempre estar. Não nos podemos esquecer que a classe política é suposto ser nossa representante, e há que abandonar uma certa postura de subserviência em que por vezes caímos.

Quais os desafios e obstáculos? À primeira (e segunda) vista, bastantes. Esta ideia não é nova; resta saber até que ponto e de que forma se pode adaptar à nossa realidade. O projecto que a inspirou é o “Don’t Blow It Hanky” do Craftivist Collective, que tinha o objectivo de levar uma cadeia de retalho do Reino Unido a adoptar o Living Wage. Este projecto ampliou uma experiência anterior da Sarah Corbett, onde conseguiu quebrar barreiras e criar uma relação mais cooperativa e amigável com a sua representante no Parlamento britânico, quando lhe ofereceu um lenço bordado especialmente para si.

Ao contrário do que acontece no Reino Unido, em Portugal não existe uma cultura de qualquer proximidade e, portanto, de responsabilização e cooperação, entre representantes e representados (ao ponto dos representados não se sentirem representados de facto). Não existe a mesma facilidade em marcar reuniões para conhecer pessoalmente um deputado, por exemplo, ou para contactá-lo de alguma forma mais directa. Existe uma barreira real e palpável que alimenta o tal ambiente de descrença que referi antes, e a simples entrega de um lenço promete ser uma quimera. Mas não é impossível!

Tendo tudo isto em conta, é fácil imaginar que um dos grandes desafios aqui seja, logo à partida, reunir pessoas suficientes para participar de forma a que a acção tenha algum impacto. Não se adivinha fácil… Mas não é impossível!

Formas de potenciar a iniciativa? Não sei se já vos tinha dito antes, mas quero muito ouvir sugestões, opiniões, ideias, críticas, e que pensem em voz alta comigo sobre tudo isto, para perceber a melhor forma de o fazer. Uma das coisas que me ocorre para que tenha mais impacto e sentido, é associar a acção à discussão na Assembleia da República de algum tema relevante, de uma proposta de lei, p.ex., que se enquadre com os nossos objectivos. Para além dos lenços individuais a oferecer, poderia também criar-se algum objecto de maiores dimensões, realizado de forma colectiva, para dar visibilidade à acção e transmitir a intenção aos destinatários.

2. Consagração dos Direitos da Natureza

Uma das acções para as quais gostaria de contribuir, e que se podia associar à anterior, é a consagração dos direitos da Natureza na Constituição e na legislação.

Por mais simbólico e até meramente formal que possa parecer, acredito que é um passo fundamental para que ocorra uma mudança de paradigma no modo como olhamos o mundo e, consequentemente, no modo como nos relacionamos com a Natureza. Uma alteração deste calibre e a este nível dá-nos uma ferramenta valiosa para mudar mentalidades gradualmente, e também para defender e proteger o que nos sustenta e dá vida, e tem tanto direito à Vida quanto nós: a uma existência pacífica e próspera de acordo com a sua natureza, e com a Natureza que partilhamos e de que fazemos parte. Sob esta protecção, é possível agir com outro peso e impacto para reverter e impedir atentados ambientais (e portanto, humanos), como a poluição dos rios e do ar, a plantação de monoculturas, ou a destruição de habitats.

Com este propósito, está a decorrer uma petição online que não tem estado a reunir as assinaturas necessárias que merece, ao ritmo que é desejável. Tem o título “Reconhecimento dos Direitos Intrínsecos da Natureza e de Todos os Seres Vivos”, e encontram-na aqui. Convido-vos a ler, assinar e partilhar de toda a forma e feitio, e também a visitarem, gostarem e sugerirem a amigos a página de facebook que a promove. E convido-vos ainda, claro, a de seguida partilharem as vossas ideias e sugestões de estratégias para alavancar esta acção, e conseguirmos finalmente que a proposta seja discutida na Assembleia da República e seja levada a bom porto.

Numa segunda parte desta espécie de relatório do que foi o debate do Dialogue Café, vou procurar introduzir outros pontos para reflexão, tomando como ponto de partida os projectos que estiveram representados, e muito bem, e que deram um contributo fundamental para a discussão. Aquilo que estão a fazer e querem fazer, com as artes e ofícios como elo de ligação, é ao mesmo tempo interessante, importante e muito inspirador.

Até lá, deixo-vos as “portas” abertas para descobrirem estes projectos com gente dentro. Considerem-nas uma espécie de T.P.C. voluntário, não-coercivo, para refrescarem ideias e virem cheios de vontade de contribuir para o diálogo.

Sónia Domingos, Guerrilha Crochet Yarn Bomb Society – A Sónia partilhou a sua experiência em yarn bombing e os vários projectos que tem vindo a desenvolver nos últimos anos através do grupo que criou, com muito empenho pessoal, convicção e carolice, conseguindo mobilizar muita gente em Portugal e noutros países para abordar questões como os direitos das mulheres, a integração de refugiados e imigrantes, a transmissão de saber intergeracional, ou o bem-estar de crianças com cancro.

Maria da Conceição Pires, Hora d’Avó / Light Factory – Determinada em criar a sua marca slow fashion com uma forte componente ecológica e artesanal, acabou por desenvolver um modelo de negócio diferente onde as artes e os ofícios, o factor humano e o foco no tempo de qualidade, se sobrepõem ao lucro, à eficiência e à rapidez imposta pelo consumismo desenfreado. O trabalho de equipa que desenvolve com um grupo muito especial de costureiras a gozarem os seus anos dourados, dá frutos que vão muito para além dos cifrões, provando que é possível construir um negócio sustentável apostando na qualidade do produto final, e nas relações e potencialidades humanas. Visitem o website, o facebook e o instagram, e descubram toda a luz que a Maria e as suas Avós criam.

Teresa Carvalheira, Community Manager do movimento Fashion Revolution em Portugal – O movimento global Fashion Revolution trabalha pela transparência na indústria da moda e do vestuário, procurando dar visibilidade aos trabalhadores em toda a cadeia de produção. Nesse sentido, promove acções de sensibilização e consciencialização dos consumidores, e procura pressionar a própria indústria para adoptar estratégias e metodologias mais responsáveis e sustentáveis. A sua área de acção é múltipla e impossível de resumir aqui, por isso não deixem de visitar o website internacional, assim como o capítulo português no facebook e no instagram. (A primeira vez que me cruzei com a organização foi graças ao Craftivist Collective que desenvolveu os “Mini Fashion Statements” para apoiar o movimento. Se sentirem a vossa veia rebelde a tilintar, continua a ser possível praticar um pouco de “shopdropping”: para saberem como, espreitem aqui.)

Gugui Cebey, Artista Têxtil e CraftivistaAnd last but not least, a Gugui Cebey também participou directamente da Argentina. Já aqui partilhámos a entrevista que deu à Betsy Greer, e que é… imperdível. A sua primeira acção craftivista é de uma inspiração genial e enternecedora, e eu, que adoro origami, identifiquei-me muito com a intenção e a execução: 1.000 pequenos grous em origami, costurados à mão em tecido, e largados pelas ruas para serem apanhados por estranhos e fazê-los sorrir. Além de participar em outras acções craftivistas colectivas, a assinatura artística da Gugui passa pela utilização de tecidos descartados, que ganham nova vida e um valor acrescido através de peças ao mesmo tempo lindíssimas e com um toque de sarcasmo que não deixa ninguém indiferente. Duma forma esteticamente bonita – poderíamos dizer gentil, porque não agride, antes atrai, – faz uma crítica incisiva à sociedade de consumo, ao desperdício, e à cultura do descartável, levando-nos a reflectir e olhar para o mundo material com outros olhos e outro coração. Podem descobri-la no seu website, no instagram e no facebook.

E claro, não deixem de visitar o Dialogue Café, e descobrir todos os projectos que desenvolvem, através do seu website ou da página no facebook. Uma última palavra para agradecer à Dalia Sendra, não só pela forma como moderou a conversa mas também por me ter convidado e dado a oportunidade maravilhosa de estar presente. Muito (muito!) obrigada, Dalia!

Até breve!

Ana

Divaganços sobre “craftivismo”: do protesto sussurrado e feito à mão

Mini-banner Craftivismo Provérbio Indígena

Se queremos que o nosso mundo seja mais belo, gentil e justo, o nosso activismo não deveria ser também ele mais belo, gentil e justo…?

Sarah P. Corbett, autora de How to be a Craftivist: The art of gentle protest, e fundadora do Craftivist Collective

Estou cansada de gritos. Não estão também? Faz falta gritar, mas depois… o que se faz com essa raiva, essa revolta, essa indignação e pura irritação? Desesperar…? Também mas não só. Também faz falta, mas não pode ser um fim em si mesmo, antes um meio para despoletar a acção e não só uma reacção.

Este foi um Verão atípico. Um Verão que começou cedo demais e teima em não terminar para dar lugar a um Outono digno desse nome, e um Verão que foi marcado não tanto por descontracção, descanso, passeio e tempo em família, embora também tenha havido momentos assim. Foi um Verão agridoce.

O princípio e o fim foram marcados por incêndios devastadores, e por uma consciência que parece generalizada, ou quase, de que havia e há muita coisa mal que precisava e precisa de ser mudada. Mas são tantos os problemas desafios, a tarefa é tão hercúlea, que é difícil não ceder ao desespero e assoberbamento, agravado pelo sentido de urgência que cresce a cada dia.

Pessoalmente, estou cansada do “business as usual” também a nível do “ambiente psicológico” que se sente, digamos assim: dos gritos, das críticas, das agressões e dos confrontos constantes, e também da apatia e do descaso. Sinto que as respostas do costume não são adequadas ou pelo menos suficientes, e que é preciso ser criativo e procurar abordagens diferentes, radicalmente diferentes, menos “anti” e mais “pró”. Petições, manifestações contra, moções de censura, conseguem fazer muito pouco de construtivo em direcção ao que queremos criar, para além de aumentarem o sentimento de derrota, de desconfiança mútua, de cinismo, e conduzirem à resignação, à crispação e à desistência. Não necessariamente, mas também.

As mesmas leituras e pesquisas que conduziram ao Colectivo Metamorfilia, conduziram igualmente à descoberta do Craftivismo. Ou a tropeçar nele. Era inevitável, provavelmente. Se procurarmos alternativas à forma comum de fazer as coisas, de viver e de olhar o mundo, vamos encontrar alternativas também às formas comuns de fazer activismo. Desde o primeiro momento que tudo fez sentido, que me identifiquei com o conceito, e que este se tornou em mais um daqueles projectos guardados numa gaveta “até um dia”, um pouco como aconteceu com o Colectivo Metamorfilia. A urgência e a impotência que os incêndios alimentaram fez ressurgir a vontade de fazer alguma coisa, mas alguma coisa de diferente, e foi aí que o Craftivismo voltou a surgir em cena.

How to be a Craftivist: The art of gentle protest, Sarah Corbett

Mas o que é?

O termo foi cunhado em 2003 pela Betsy Greer, juntando “Craft” + “Activism”. É difícil ou mesmo impossível defini-lo de forma muito concreta: congrega todas as acções em prol de uma transformação social que usam técnicas ou expressões das artes e dos ofícios. Sob o chapéu dos “crafts” podem incluir-se as manualidades, os lavores, os ofícios, ou o que lhes quiserem chamar. Cada um feito como uma expressão pessoal, individual, do “activista”, sozinho ou integrado num colectivo.

Este é um dos elementos que me atraiu desde o primeiro contacto: a possibilidade de cada um de nós contribuir à sua maneira, imprimindo o seu cunho pessoal, com o que tem de único para dar, de acordo com o seu temperamento e com as suas circunstâncias. Como introvertida assumida que sou, a ideia de “ir para a rua gritar”, como dizia o poeta, causa-me alguns calafrios. Há quem dê o melhor de si em voz baixa, sozinha ou em pequenos grupos, de forma tranquila e até sussurrada. Mas nem sempre sussurrada.

IMG_20171101_160519_289O conceito não é novo: desde pelo menos o movimento das sufragistas que o vemos em acção, geralmente como ferramenta de intervenção social e política das mulheres, devido à natureza doméstica e íntima, tipicamente feminina, das técnicas usadas: crochet, bordado, tricot, costura, patchwork, e derivados. Mas não só. Um exemplo conjugado no masculino, é o do Tom of Holland, de que tomei conhecimento agora, com o seu projecto “Visible Mending”. (A ideia suscita-me uma série de divaganços que talvez justifiquem um outro blog post.)

De forma clandestina, com a criação de peças que denunciavam situações de opressão (como o caso das arpilleras durante a ditadura chilena), ou de forma mais expansiva e visível, como com as sufragistas, historicamente as mulheres encontraram nos lavores uma forma de expressão individual, de empoderamento colectivo, de emancipação e construção de redes de solidariedade, e de transformação social e política.

Que sentido faz?

Todo! A própria natureza da técnica convida à reflexão, e é em si mesma uma forma de activismo. É uma acção disruptora, que contraria, critica e oferece um meio de resistência ao status quo, aos paradigmas que regem e constrangem o indivíduo em dado momento e lugar.

À sociedade de consumo hiper-tecnológica e automatizada, refém da eficiência e da rapidez, padronizada, os “crafts” oferecem uma alternativa: feitos à mão, da forma mais artesanal e analógica possível, lentamente, i.e., ao ritmo natural do ser humano, são uma expressão da nossa individualidade, da nossa criatividade, com defeitos e tudo. Através dos “crafts”, colocamo-nos como criadores e produtores activos, como agentes de mudança, e não como consumidores passivos.

Por isto, o Craftivismo pode ser uma ferramenta poderosa de transformação pessoal e colectiva. De emancipação e empoderamento, capaz de despertar a nossa auto-confiança, de alimentar a nossa resiliência individual e comunitária, de contrariar a sensação de impotência, ao experienciarmos, despertarmos e comprovarmos em primeira mão aquilo que há de mais humano em nós: a imaginação, a criatividade, a capacidade de fazer usando as mãos em simbiose com a mente, engajando as nossas emoções e criando relações com o Outro.

As nossas emoções e não só. Porque uma das mais-valias do Craftivismo por comparação com o activismo mais familiar, é que inspira uma reacção também ela diferente nos outros. Existe uma ligação sensorial, mais íntima e profunda, com um objecto feito à mão, táctil, onde é possível perceber e imaginar os gestos que o criaram, o cuidado com que foi feito, o tempo e a atenção que foram dispendidos no processo. Com todos os seus defeitos e peculiaridades e as idiossincrasias de quem fez, porque não há um objecto igual. Como cada um de nós, cada um desses objectos tem um carácter único e irrepetível. Da mesma forma que, ao oferecermos algo que fizemos com as nossas mãos a alguém de quem gostamos, estamos a passar uma mensagem especial e a dar algo com outro valor, independentemente do custo – estamos a dar do nosso tempo, – a oferta de um objecto “craftivista” pode também ser entendida como um presente, uma forma de comunicação mais pessoal e intencional do que uma assinatura numa petição. E com isto, estamos a derrubar barreiras e a construir pontes no seu lugar.

Mas como pode funcionar?

O Craftivismo não ocupa nem retira o lugar a outras formas de activismo. São todas importantes e cada uma desempenha o seu papel e tem o seu momento e propósito. O que funciona será precisamente a conjugação de diferentes tácticas, enquadradas numa estratégia concertada, pensada como um todo.

Alterar uma lei ou forçar decisores políticos num determinado sentido, passa muitas vezes por assinar petições e participar em manifestações. Mas nada invalida que mesmo estes actos sejam revestidos de uma outra forma de estar, mais dialogante e menos confrontacional, e mais virada para a construção de soluções e de alternativas, para a transformação das próprias estruturas que estão na origem dos problemas contra os quais protestamos de forma agressiva ou gentil. O objectivo não é tanto ser contra quanto é ser a favor de alguma coisa. O grande propósito passa por derrubar as estruturas opressoras, problemáticas, injustas, mas deve dirigir-se para a construção de estruturas alternativas que vão de encontro à visão que temos para um mundo mais belo e justo para todos os seres e todos os elementos de/da Vida. Depois de derrubadas essas estruturas, o que se constrói sobre os destroços?

E depois? Ou melhor: e agora?

Este é apenas o primeiro artigo sobre Craftivismo. Conto voltar à carga em breve e várias vezes. É um mundo! Agora deixo aqui alguns artigos e vídeos para ilustrar tudo isto, e abrir portas para que possam também começar a explorar este mundo. E faço-vos o convite a que regressem aqui (sempre e as vezes que quiserem), e partilhem o que vos passa pela cabeça, para pensarmos em voz alta no que se pode fazer. Com que linhas nos podemos coser…? É nisso em que tenho estado a ruminar e ainda não tenho um plano concreto, apesar de ter já criado um grupo no facebook com este objectivo. Ideias tenho bastantes, mas foco nem por isso, e para um projecto como este ser consequente, precisa de estratégia… e de gente! Em breve, vou estar presente num debate em forma de conversa, onde espero aprender muito e ganhar (algum) rumo. Volto depois aqui para contar como foi, e divagar sobre as ideias que não me deixam dormir à noite e me fazem sonhar acordada.

Até breve!

Ana

História e apresentação do Craftivist Collective

Uma das várias palestras da Sarah Corbett em eventos TEDx

O Craftivismo pelas palavras de quem cunhou o termo, a Betsy Greer

Um vídeo sobre a História do Craftivismo, de Sayraphim Lothian

Uma entrevista inspiradora com a Gugui Cebey, craftivista

A Campanha Linha Vermelha, um exemplo de craftivismo em Portugal (website e facebook)

Metamorfilia, s.f., amor pela transformação

CM_Bem-vindos

No dia 25 de Julho, decidimos finalmente carregar no botão “Publicar”. Ou melhor, passar a visibilidade da página a “pública”.

Está longe de estar perfeita, e há muito para fazer e melhorar, só que a ideia está à espera há demasiado tempo. Começámos a construir a página há cerca de um mês, mas a intenção existe há praticamente quatro anos. Ao lermos sei lá quantos textos e uns quantos livros que nos davam sempre muita vontade de partilhar com conhecidos e desconhecidos, ficava sempre aquela sensação de que faltava alguma coisa para que estes chegassem às pessoas, e fossem realmente lidos por elas, pelo menos por aquelas que nos eram mais próximas, física e/ou virtualmente. Para começo de conversa, o que faltava era que esses textos pudessem ser lidos em português.

A grande maioria dos autores e das palavras que aqui queremos partilhar aborda ideias que são ainda desconhecidas ou marginais no panorama nacional. Algumas delas são abordadas apenas de forma superficial, ou em meios alternativos, e estão longe de ser mainstream e tema de debates mais abrangentes. Outras, só recentemente é que começaram a chegar aos meios de comunicação de maior audiência.

Para que haja maior diversidade na opinião pública, na discussão dos problemas e de possíveis soluções, é fundamental trazer ideias novas ou pelo menos “estranhas” para a conversa. E é fundamental nós mesmos, cada um de nós individualmente, termos mente aberta e disponibilidade para reflectir e colocar em causa o que damos por certo, uma certa forma de fazer e ver as coisas, que aprendemos que seria a única possível, aceitável e/ou realista, mas que não está a funcionar.

A transformação pode ser um processo doloroso. Mudar de ideias pode ser muito desconfortável. Mas como a lagarta que se transforma em borboleta, como a criança que cresce para se tornar adulta, as dores de crescimento são fundamentais para caminharmos na direcção de algo melhor e com mais sentido.

Sabemos já como o nosso cérebro é pouco dado a mudanças e revoluções. É um órgão conservador, que tende à eficiência e gosta de rotinas, de familiaridade, de gestão de esforço e de recursos. Que gosta, enfim, de status quo. E sabemos por isso que, instintivamente, nos preservamos e recusamos aquilo que contraria as nossas pré-concepções e vai contra a nossa forma de ver o mundo e de agir no mundo. É por isso que todo este processo tem que ser um esforço consciente, que resulta de um amor pela transformação superior ao amor pela inércia e pelo conforto, e que reflecte um amor pela vida nas suas diversas formas. Implica estarmos conscientes dos nossos próprios preconceitos incutidos e involuntários, por mais tolerantes e racionais que nos consideremos. É fundamental para mudar seja o que for, a começar por nós próprios e pelo nosso mundo mais imediato.

Praticar a “metamorfilia” é uma espécie de exercício ao cérebro e ao coração, uma atitude de questionamento, de busca, de imaginação e criatividade constantes, que nos mantém alertas e envolvidos no que nos rodeia, porque “nós”, o nosso eu, não é demarcado pela nossa pele nem termina numa linha de fronteira artificial que nos separa dos outros, e vive antes em sinergia com tudo e todos à nossa volta. Com o ar, a água, a terra e a Terra, com a Natureza de que fazemos parte e que faz parte de nós. O ser humano não é mesmo uma ilha, e por mais que gostássemos que fosse, como forma de nos protegermos e resguardarmos do sofrimento e das dificuldades, mesmo uma ilha só existe enquanto tal porque está rodeada de água e em contacto directo com ela.

O Colectivo Metamorfilia pretende ser apenas um pequeno espaço de partilha de ideias, e servir como faísca que dá início às conversas que precisamos urgentemente de começar a ter com nós mesmos e uns com os outros.

Para estrear a secção de traduções, começamos com três textos e três autores que nos dizem muito, e que tocam em temas centrais para qualquer transformação: a educação das crianças, e a nossa relação com a Natureza. Aqui ficam:

CM_Traduções

E se quiserem participar, seja de que forma for, todas as mãos, cabeças e corações são bem-vindos!

Ana