4 Equívocos sobre a Vida Simples, de Duane Elgin

Equívocos Vida Simples_Duane Elgin
Original: «4 Misconceptions About the Simple Life», de Duane Elgin, em HuffPost | The Blog (27/08/2011), primeiro publicado na edição de 2010 do livro Voluntary Simplicity
Projectos: Duane Elgin | Great Transition Stories

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É importante identificar estereótipos incorrectos sobre a vida simples, porque passam a ideia de que não é prática, e de que é uma forma desadequada de responder a colapsos críticos crescentes nos sistemas mundiais. Quatro equívocos sobre vida simples são tão comuns, que merecem atenção especial. Estes equacionam simplicidade com: pobreza, regresso ao trabalho da terra, viver sem beleza, e estagnação económica.

1. Simplicidade Significa Pobreza

Apesar de algumas tradições espirituais fazerem a apologia da renúncia extrema, é muito equívoco equacionar simplicidade com pobreza. A pobreza é involuntária e debilitante, enquanto a simplicidade é voluntária e emancipadora. Uma vida de simplicidade consciente pode ter uma beleza e uma integridade funcional que elevam o espírito humano.

A pobreza cultiva uma sensação de impotência, passividade e desespero, ao passo que uma simplicidade intencional alimenta uma sensação de poder pessoal, participação criativa, e oportunidade. Historicamente, aqueles que escolhem uma vida mais simples procuram o meio-termo [1] – um equilíbrio criativo e estético entre pobreza e excesso. Em vez de colocarem o ênfase principal em riquezas materiais, procuram desenvolver, com equilíbrio, a abundância invisível de riquezas experienciais.

2. Simplicidade Significa Vida Rural

Na imaginação popular, existe uma tendência para equacionar a vida simples com a cabana de Thoreau no bosque junto ao Lago Walden [2], e para presumir que as pessoas devem viver uma existência isolada e rural. Curiosamente, Thoreau não foi um eremita durante a sua estadia no Lago Walden. A sua famosa cabana estava a cerca de uma milha da vila de Concord, onde ia a pé a cada dois ou três dias. A sua cabana estava tão próxima da rodovia, que podia sentir o cheiro a fumo de escape dos viajantes que aí passavam.

Thoreau escreveu que teve “mais visitantes enquanto vivi no bosque do que em qualquer outro período da minha vida.” A visão romantizada da vida rural não encaixa com a realidade moderna, uma vez que a maioria das pessoas que escolhem uma vida de simplicidade consciente não vive no meio do mato ou num ambiente rural. Em vez de um movimento de “regresso à terra” [3], é muito mais preciso descrever isto como um movimento “tira o melhor partido de onde quer que te encontres”. Cada vez mais, isto significa adaptarmo-nos de forma criativa a um mundo em rápida mudança no contexto das grandes cidades e dos subúrbios.

3. Simplicidade Significa Viver Sem Beleza

A vida simples é por vezes vista como uma abordagem que advoga uma banalidade estéril e que nega o valor da beleza e da estética. Enquanto que os Puritanos, por exemplo, suspeitavam das artes, a maioria dos defensores da simplicidade têm-na visto como essencial para revelar a beleza natural das coisas.

Muitos dos que adoptam uma vida mais simples concordariam seguramente com Pablo Picasso, que disse “A Arte é a eliminação do supérfluo.” Leonardo da Vinci escreveu que “A simplicidade é a derradeira sofisticação”, Frederic Chopin escreveu que “A simplicidade é a realização última… a recompensa maior da arte.”

O influente arquitecto Frank Lloyd Wright era um defensor de uma “simplicidade orgânica” que integra função e beleza, e elimina o supérfluo. Na sua arquitectura, o interior e o exterior de um edifício confundem-se num todo orgânico, e o edifício, por sua vez, confunde-se de forma harmoniosa com o ambiente natural. Em vez de implicar uma negação da beleza, a simplicidade liberta o sentido estético ao libertar as coisas de constrangimentos artificiais. De uma perspectiva espiritual, a simplicidade remove a desordem obscura e revela a energia vital que impregna todas as coisas.

4. Simplicidade Significa Estagnação Económica

Alguns preocupam-se que, se um número significativo de pessoas simplificar as suas vidas, a procura por bens de consumo irá decrescer e, por sua vez, provocar desemprego e estagnação económica. Embora seja verdade que o nível e os padrões de consumo pessoal iriam mudar numa sociedade que valoriza uma forma de vida mais verde, uma economia robusta que adopta a sustentabilidade pode florescer.

Apesar do sector de consumo e de bens materiais se contrair, os sectores público e de serviços iriam expandir-se de forma dramática. Quando olhamos para o mundo, vemos um número enorme de necessidades por satisfazer: o cuidado dos mais velhos, a recuperação do ambiente, a educação de uma juventude iletrada e sem qualificações, a reparação de estradas e infra-estruturas degradadas, a prestação de cuidados de saúde, a criação de mercados comunitários e empresas locais, a adaptação da paisagem urbana à sustentabilidade, e muitas mais.

Como existe um número enorme de necessidades por satisfazer, existe um número igualmente grande de trabalhos com propósito e satisfatórios numa economia amiga do Planeta.

Uma tarefa central e entusiasmante dos nossos tempos, é desenvolvermo-nos de forma consciente a pensar num futuro sustentável e com sentido, de dentro para fora. Ao imaginarmos como esse futuro poderá ser, é importante não nos prendermos a velhos estereótipos e, ao invés, percebermos o realismo e a beleza de formas de vida mais simples.

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Notas adicionais:
[1] “Golden mean” no original, rf. Filosofia.
[2] Walden ou a Vida nos Bosques (1854) é uma obra autobiográfica do autor transcendentalista Henry-David Thoreau, e que serve de referência para os movimentos que criticam a civilização industrial. Para uma síntese das ideias principais do livro, v. Thoreau (The Simplicity Collective).
[3] “Back to the land” no original, rf. a movimento agrário que advogava uma vida mais simples e auto-suficiente, centrada em pequenas unidades de produção familiar para consumo próprio e/ou da comunidade onde se integram. As décadas de 1920 e 1930 foram especialmente ricas em experiências, nos Estados Unidos sobretudo, na busca por alternativas ao sistema capitalista. Como exemplos concretos, v. Ralph Borsodi e Helen e Scott Nearing.

Tradução: Ana Torradinhas